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CAARAPÓ - MS, domingo, 24 de outubro de 2021


Geadas no MS prejudicam produção rural e podem alterar para cima a inflação

Custo dos alimentos deve pesar no bolso do consumidor com as perdas registradas nos grãos, pastagens e cana-de-açúcar em decorrência da frente fria

Publicado em: 31/07/2021 às 09h22

Súzan Benitez

Na semana passada, mais de 30 cidades de Mato Grosso do Sul enfrentaram temperaturas baixas com incidência de geadas. Municípios como Rio Brilhante e Iguatemi registraram temperaturas negativas. Em Campo Grande, o termômetro chegou a marcar 2,7ºC. As geadas impactam a produção de alimentos e, consequentemente, a inflação.

Conforme especialistas ouvidos pelo Correio do Estado, os hortifrutigranjeiros, proteínas animais e alimentos como um todo, devem sofrer aumentos durante os próximos meses. A geada é a formação de camadas finas de gelo sobre a superfície do solo e, quando há incidência nas plantas e nas pastagens, o gelo acaba “queimando” as produções.

“Nós somos um Estado que depende do milho e temos uma quebra de safra de quase 50% [por causa da estiagem, da chuva de granizo e da geada]. Com essa oferta menor, os preços sobem. O milho impacta a ração de suínos, bovinos e aves e os insumos da alimentação, como farinhas”, analisa o doutor em Economia Michel Constantino.

“Outros produtos, como hortaliças, estão sendo impactados nesse momento, e os preços aumentarão bastante. E temos ainda a questão dos pastos, que teremos o problema para engordar o gado", avalia o economista. "A ação hoje é importar milho da Argentina para não aumentar tanto o preço. Já as hortaliças não têm jeito, os produtores tentaram cobrir as plantações para evitar maiores perdas. Com certeza teremos aumento da inflação”, completa.

Para a economista Marcela Souza , plantações de café já sofrem os prejuízos. “Os agricultores estão tendo perdas muito grandes com essas geadas. É possível notar que as mudanças climáticas estão impactando até mesmo a qualidade dos produtos, e os preços também vão subir. As plantações de café já estão bem afetadas, assim como as folhas”, explica.

PRODUTOS EM ALTA

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que o grupo de alimentos e bebidas acumula alta de 15,37% em Campo Grande nos últimos 12 meses.

O economista Marcio Coutinho afirma que não é possível cravar o tamanho do impacto da geada em porcentual. “Quando a oferta diminui, a tendência é de que os preços desses produtos aumentem e esses alimentos podem ser os vilões da inflação. Acredito que isso pode acontecer em função das geadas, só não temos como precisar esse porcentual de aumento porque depende de vários fatores", destaca.

"Mas a tendência é que isso [geada] reflita nos preços aos consumidores e, consequentemente, aumente a inflação”, completa. O custo de alguns alimentos que já acumulam alta pode subir ainda mais.

Segundo dados do IBGE, em Campo Grande, o tomate registra inflação de 53,40%, o arroz, 43,46%, a carne de porco, 23,63%, o frango, 20,04%, o café moído, 17,46%, e as hortaliças e verduras, 13,22%.

As lavouras de milho do Estado têm enfrentado as maiores perdas por causa das intempéries climáticas. Conforme já adiantado pelo Correio do Estado, a estimativa da produção do milho safrinha tem o pior resultado da série histórica.

Dados do Sistema de Informação Geográfica do Agronegócio (Siga MS) apontam que a projeção para 2020/2021 foi revisada para 6,28 milhões de toneladas – a menor colheita registrada desde o ciclo 2013/2014, quando as lavouras começaram a ser monitoradas. Outras culturas afetadas diretamente pelo clima foram o eucalipto e a cana-de-açúcar. Hoje, os produtos florestais aparecem como o segundo item da pauta de exportações do Estado, com 23,3% do total.

NACIONAL

De acordo com nota divulgada na quinta-feira (29.07), a instituição financeira XP estima que as geadas podem impactar este ano em 0,1 ponto percentual, com potencial de a alta do IPCA ultrapassar 7,0% em 2021. Os analistas da XP já tinham elevado as projeções para a alta dos preços de alimentação no domicílio no mês de julho, em razão das geadas que já tinham sido registradas em várias cidades.

“Em 2021, a projeção de IPCA em 6,7% tem riscos assimétricos para cima. Com geadas e reabertura da economia no radar, a inflação pode ficar acima de 7% no ano”, diz o relatório. Ainda de acordo com a XP, “as culturas mais impactadas com a queda na temperatura são o café, as hortaliças e as frutas. Com diminuição da oferta, os preços tendem a subir e esse repasse costuma ser rápido”.

Outros fatores que podem impactar a inflação para os próximos meses são o aumento na conta de luz e dos combustíveis, como a gasolina, o diesel e o gás de cozinha.