Terça-feira, 20 de outubro de 2020

'Bala de prata' contra covid-19 pode não existir, avalia a OMS

Diretor-geral da agência alerta que, apesar dos testes avançados com vacinas, há a possibilidade de os cientistas não chegarem a uma fórmula imunizante. Para ele, não se pode abrir mão de medidas com efeito já constatado, como o isolamento e a testagem em massa

Publicado em: 04/08/2020 às 07h54


Enquanto o mundo assiste à acirrada corrida, travada por cientistas e laboratórios, em busca de uma vacina contra a covid-19, a Organização Mundial da Saúde (OMS) adverte para a possibilidade de a fórmula de imunização nunca surgir. O alerta foi feito, ontem, pelo diretor-geral da agência das Nações Unidas, que também reforçou a necessidade de manter as medidas de contenção da enfermidade, como o isolamento e a testagem em massa. Tedros Adhanom Ghebreyesus lembrou ainda da importância da atuação dos líderes políticos no combate à pandemia.


Não há solução milagrosa e, talvez, nunca exista. Os ensaios clínicos nos dão esperança, mas isso não significa, necessariamente, que teremos uma vacina”, afirmou o diretor-geral da OMS, em uma entrevista coletiva virtual de Genebra, sede do órgão internacional. Para ele, o novo coronavírus poderá ser a maior emergência sanitária global desde o começo do século 20, e essa crise tem mobilizado os cientistas de forma histórica. Ainda assim, uma “bala de prata” não está garantida, lembrou Tedros Ghebreyesus. “Muitas vacinas estão na terceira fase de testes clínicos e todos esperamos que haja várias vacinas eficientes, que possam ajudar a prevenir que pessoas sejam infectadas. No entanto, não existe bala de prata no momento, e pode ser que nunca exista”.


O diretor da OMS também defendeu que é necessário se concentrar em medidas de enfrentamento já adotadas, porque existem provas de que elas são eficazes. “Devemos conter os surtos, testar, isolar e tratar pacientes, procurar e colocar em quarentena seus contatos, mas também informar (as pessoas), para romper as cadeias de transmissão do novo coronavírus”, listou. Segundo ele, o cumprimento dessas orientações só pode ser feito com o apoio de líderes internacionais. “Todos esperamos ter um número de vacinas eficazes que possam evitar que as pessoas sejam infectadas, mas frear os focos da doença depende do respeito às medidas de saúde pública e do compromisso político”, justificou.


Tedros Adhanom Ghebreyesus  ressaltou ainda que o comitê de emergência da OMS se reuniu na última sexta-feira e “foi muito claro” nesse sentido. “Quando os líderes trabalham de maneira muito estreita com as populações, essa doença pode ser controlada”, disse. “A mensagem para as pessoas e os governos é: ‘Façam tudo isso e continuem mesmo quando a doença estiver sob controle’”, enfatizou, depois de apontar que vários países que pareciam ter passado pelo pior momento estão registrando novos surtos da doença.


Redução de cuidados


Ana Karolina Barreto Marinho, coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai), acredita que o posicionamento da OMS reflete uma preocupação com a redução de cuidados preventivos. “Eles deixam claro que a vacinação é, sim, importante, mas não é a única medida de combate. Mesmo que tenhamos vacina, ela, sozinha, não vai ser capaz de acabar com a covid-19. Essas formas de imunização, quando estiverem disponíveis, vão nos ajudar a controlar a doença, que vai continuar existindo”, explicou. “Por isso, temos de manter os métodos de higiene, ampliar as testagens e continuar em busca de novos medicamentos. Todos esses pontos são essenciais para conter a pandemia e não podem ser descartados.”

A especialista brasileira ressalta que o pedido de empenho para os líderes políticos é importante. “Somente com os governantes empenhados e com políticas públicas claras, será possível comunicar à comunidade sobre como é importante mantermos todas essas medidas, e que temos de trabalhar juntos para atingir esse objetivo”, detalhou a médica.


Valéria Paes, infectologista e membro da Diretoria da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, também acredita que o alerta da OMS ajuda a trazer as pessoas ao cenário real. “É claro que as vacinas são a nossa grande esperança, mas ainda existe um prazo para que elas estejam disponíveis. Cabe a nós continuarmos adotando medidas que já são comprovadamente eficazes, principalmente higienização e máscaras, que são simples e muito eficientes”, alertou.


Para a médica, existe preocupação dos especialistas em relação a uma diminuição dos cuidados entre a população. “É difícil você mudar hábitos, não é de uma hora para outra. As pessoas querem voltar à vida normal, mas isso não é mais possível. Precisamos ter em mente que tudo isso é necessário para manter a saúde pública, a nossa, a de nossos familiares e amigos. Infelizmente, muitos só caem em si quando perdem alguém próximo.”